sexta-feira, 18 de março de 2016

Empregadas domésticas e babás- Necessidade ou Status?


Sobre a imagem do casal com camiseta da seleção durante a manifestação “anti-corrupção” do dia 13 de março de 2016 nas ruas de Copacabana, onde logo atrás vemos uma babá negra com seu uniforme branco padrão empurrando o carrinho de seus filhos:
Soube que o homem que aparece na imagem(diretor financeiro do Clube de Regatas do Flamengo e ex-banqueiro) deu uma declaração se “explicando”, ou apenas repetindo o que vimos na imagem, uma empregada/babá(trabalhadora formal) em seu horário de serviço. O homem em questão ressaltou o quanto, o que ele fazia não era errado, afinal “ele paga o salário em dia, 13º e hora extra para que ela trabalhe aos finais de semana”, e também ressaltou que “ela é livre para pedir demissão a hora que quiser, caso esteja insatisfeita com o serviço”. Será? Será que essa mulher não tem filhos, casa, contas para pagar, talvez uma baixa escolaridade e por isso ela tem esse emprego e, por isso ela permanece nesse emprego? Será que ela realmente “pode desistir desse serviço quando quiser”? Vamos por a mão na consciência?

A única coisa que eu penso é, até onde vai a desonestidade da classe média nesse país? Desonestidade porque, eu me recuso a chamar alguém que “gera tantos empregos” e parece ser minimamente bem compreendido das coisas de ignorantes. Prefiro classificar como desonestos mesmo.
Sempre comentei com amigos e amigas, que de muitas coisas absurdas que vemos na Zona Sul do Rio de Janeiro, sem dúvidas a que mais me deixa chocada são as babás de branco passeando com crianças. “Por que? É um emprego digno, ela está trabalhando e ganhando seu sustento!”. Amigos, em momento nenhum condenamos a empregada, esse é um trabalho digno e por vezes necessário mesmo, fico feliz que hoje em dia diferente de alguns anos atrás as empregadas domésticas e babás são trabalhadoras formais e com direitos trabalhistas garantidos por lei. Vamos, parar de hipocrisia e vermos o outro lado?

Em países europeus por exemplo, possuir uma babá ou uma empregada doméstica é algo de luxo, apenas pessoas realmente ricas tem. Em países como os Estados Unidos é comum a contratação de jovens sendo pagas por horas de serviço para cuidar das crianças enquanto os pais vão jantar ou a uma festa uma noite, sem seus filhos. Mas, quando viemos para o Brasil esse parece ser o “artigo” necessário em qualquer família de classe média, não se trata de precisar de alguém para cuidar de seus filhos, não é sobre ajuda, é sobre status. Por que não colocamos a mão na consciência pelo menos uma vez?

Você classe média, trabalha a semana inteira, tem uma babá para cuidar dos seus filhos durante a semana, o que obviamente é melhor do que deixar as crianças sozinhas e como o homem da imagem em questão disse “gera emprego” e afirmo de fato, isso é algo muito bom. Mas me expliquem, o que impede esses pais trabalhadores de irem ao shopping com seus filhos sem precisar ter uma mulher- que não é a mãe deles, e tão pouco amiga do casal como o uniforme branco faz questão de ressaltar- carregando seus filhos? Por que esses pais não podem por exemplo dar a mão para duas crianças ao mesmo tempo? Ou alimentá-los na praça de alimentação? Por que precisam ter algo que nos remete a “servos” indo atrás deles e carregando suas crianças e pertences? Será que eles realmente não conseguem pensar nisso?

O que os impede de ir a uma manifestação sozinhos(porque afinal, será que aquela mulher negra e trabalhadora estaria mesmo lá com a camiseta com as cores do Brasil participando de uma procissão pela caída do governo que nos últimos anos possibilitou tantas conquistas à sua classe?).

Vamos ser honestos? Vamos rever nossos posicionamentos? Você pagar o salário de seus funcionários e garantir os direitos de seus trabalhadores não é mais que sua obrigação, é a lei e isso não muda as questões sociais(e principalmente raciais) que empregos como o de babá em tempo integral ou babás de fim de semana nos remetem diariamente.

Isso não muda o fato de mulheres como essa babá, dormirem em quartos minúsculos e sem luz no fundo de suas casas, abdicarem de cuidar de seus próprios filhos para cuidar dos dos patrões, você pagar os direitos trabalhistas dessas mulheres e seu salário(que com certeza não equivale a todo o trabalho que elas tem) não te exime de sua posição opressora, não te faz salvador da pátria, não tira privilégios que você prefere ignorar e, fingir que não existem. Você pagar um salário, não desfaz a herança escravocrata que permeiam a vida de mulheres negras até hoje.


Por Fabiana Pinto Do via Guest Post para o Portal Geledés
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