terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O dia em que Beyoncé virou negra


Alguns indivíduos são nossos amigos e admiradores apenas por conveniência. Basta que façamos algo ou expressemos alguma opinião que não lhes satisfaça a suprema vontade e pronto. Acabou a amizade e admiração. Na verdade a admiração nunca existiu. A amizade muito menos. Você era apenas uma peça no tabuleiro do jogo de vida dessa pessoa. Enquanto você estava lhe garantindo pontos, ok! Quando ela percebe que você não vai mais fazer o seu jogo, ela lhe aplica um game over. Ou seja, não quero mais papo. Não serve mais pra mim.

A cantora Beyoncé está experimentando o gosto amargo dessa porção hipócrita da humanidade. Porção essa que é bem maior do que possamos imaginar. A artista foi uma das atrações no palco do Super Bowl, no intervalo da final do campeonato americano de futebol, que costuma ter a maior audiência da TV nos EUA. A então, grande diva da música pop americana, cantou a sua nova música de trabalho, “Formation”, cuja letra toca na ferida do racismo nos EUA e escracha a violência e os assassinatos cometidos por abuso de poder por parte de polícia e que vitima os negros daquele país há décadas.

Além de trajarem, ela e suas dançarinas, um figurino que remetia ao grupo Panteras Negras, organização que entre os anos 1960 e 1980 denunciava os abusos sofridos pela população por parte da polícia norte americana e pregava uma revolução negra no país, Beyoncé ainda fez um “X” durante sua performance, numa clara alusão a Malcolm X, grande líder negro e defensor do nacionalismo negro nos EUA. Uma das frases da música cantada por Beyoncé no palco do Super Bowl diz: “Eu posso ser um Bill Gates negro em progresso, porque eu arraso” Foi um alvoroço total. Ela acabara de se transformar no maior lançador da história do Super Bowl, fazendo um lançamento de 100 jardas, preciso e certeiro. Só que a bola caiu feito uma bomba na mão do recebedor. E como batata quente ninguém segura, deu-s e a discórdia.

Beyoncé despertou a ira dos conservadores e foi desencadeada uma campanha de boicote a artista. Até o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, se manifestou contra o discurso de empoderamento negro da cantora, alegando que a cantora atacou a polícia norte-americana e estimulou a violência. Outros grupos, inclusive de fãs do Super Bowl, repudiaram o que eles classificaram como “discurso de ódio e racismo” e até organizaram um protesto em frente a sede da liga nacional de futebol americano. Mas por que uma simples música gerou tanta polêmica? Por que a diva do pop internacional está sendo colocada no paredão?

Experimente você, que é negro e lê esse artigo, a falar sobre racismo com seus amigos, vizinhos ou colegas de trabalho que não são negros. Traga a tona todo o constrangimento histórico que foi causado a seus antepassados e que ainda hoje tem consequências em nossa sociedade. Certamente você ouvirá frases do tipo: “Isso é coisa da sua cabeça”, “Isso não existe mais”, “Somos todos iguais” Mas caso você insista e decida se manifestar de forma mais contundente, não aceitando o tratamento inferior que lhe é dado por seu chefe, não se calando diante de atitudes racistas no seu dia a dia e colocando o dedo na cara e na ferida de quem é portador de um racismo internalizado e nem se dá conta disso, prepare-se! Você será visto como um perigo para a sociedade.

O oprimido passa a ser o opressor das ideias de quem o oprime, quando não se cala diante da opressão sofrida. A sua justa indignação diante da injustiça que lhe é imposta, acaba sendo usada contra ele, sob o argumento de que ele é um subversivo de alta periculosidade e que a qualquer momento pode deflagrar uma onda de revolta nos oprimidos, impedindo assim que o sistema continue a privilegiar a tradicional casta fascista que detém o poder. Na verdade esse perigoso subversivo é um libertador que conscientiza os demais e os alerta para que façam valer os seus direitos de igualdade em relação a todos. Beyoncé foi subversiva na visão dos fascistas. Ousou a desafiar publicamente um sistema que até então não a enxergava, ou fingia não enxergá-la como negra, devido à posição social que ela ocupa e também devido ao fato de até então ela não ter se manifestado de forma tão contundente contra o racismo institucionalizado em nossa sociedade.

O negro conformado, subserviente e que acredita na meritocracia e na justiça social dos fascistas é sempre bem aceito. Até porque ele já sabe onde é o seu lugar. Não vai querer incomodar ninguém. Mas o negro libertário, contestador e de personalidade, é sempre um problema. É polêmico, problemático, quer ser tratado com respeito, quer os mesmos direitos, não quer mais ficar na senzala do esquecimento e da opressão. Os racistas piram! A Beyoncé de “Single Ladys” ficou para trás. O norte americano pensava que ela fosse branca e quando descobriram que ela não passa de uma negra de sucesso, se decepcionaram. Talvez agora eu entenda a razão pela qual o nosso Pelé não abra mão da sua “White face” social. Ele é o rei do futebol e se descobrirem que ele é negro, a sua coroa pode p assar para outra cabeça. Afinal, em terra de fascista, nem todo mundo pode ser rei. Mas qualquer um é coroado, desde que pense e aja como um.

Viva a resistência!


Por NÊGGO TOM, do Brasil 247
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