sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Após novo deslizamento em MG, autoridades e moradores não acreditam que Samarco possa garantir segurança



Autoridades e moradores da região de Mariana (MG) não acreditam que a mineradora Samarco possa garantir a segurança no entorno de suas barragens. O posicionamento veio nesta quinta-feira (28), um dia após um novo deslizamento na Barragem de Fundão, no qual 1 milhão de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro vazaram. É a mesma estrutura que se rompeu em 5 de novembro, deixando 17 mortos e dois desaparecidos.

“Ontem estávamos em Barra Longa (MG) quando teve o novo vazamento e pudemos comprovar como a empresa não está pronta para lidar com as pessoas. Foi o caos, as pessoas passaram mal, algumas ainda estão internadas, sem ter nenhuma informação sobre o que estava acontecendo”, afirmou Letícia Oliveira, representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em audiência da Comissão de Barragens na Assembleia Legislativa (ALMG).

A falta de uma solução em Barra Longa é um bom exemplo do cenário catastrófico que se instalou para os moradores atingidos pela lama, os quais não cientes de quando a Samarco irá tomar as devidas providências para realocá-los e prestar as devidas indenizações. É o caso de Dona Eva, uma moradora da área que recebeu a promessa de uma nova casa. Segundo uma engenheira da Samarco, “se tirar a lama, sua casa cai”.

“Levantei várias vezes à noite assustado ouvindo o barulho, pensei que a outra barragem tivesse rompido e a lama tivesse chegando de novo na minha casa”, afirmou Seu Geraldo, que faz hemodiálise duas vezes por semana. De acordo com o MAB, representantes da mineradora não têm prestado as devidas informações e o clima de incerteza apenas agrava o processo de recomeço dos moradores.

A sugestão de criação de uma fundação para gerir os recursos para recuperação da região também foi alvo de críticas dos moradores. “Representantes dos governos estadual e federal vão lá deliberar junto com empresa a criação de uma fundação que vai administrar o recurso que vai definir a vida de todo mundo? Não concordamos com isso”, disse Marino D'Angelo Junior, morador da região afetada.

Alguns parlamentares concordaram. “A reparação dos danos é uma obrigação da empresa. Não me parece necessário criar uma fundação para executar essa tarefa”, avaliou o deputado Agostinho Patrus Filho (PV).

O gerente-geral de planejamento da Samarco, José Luiz Furquim Werneck, rebateu os moradores, dizendo que a mineradora está sim aberta ao diálogo e que tem total interesse em resolver todos os problemas o mais rápido possível. O representante da empresa disse ainda que existem mais de 500 pessoas em Barra Longa reformando casas. A Samarco também está empregando pessoas da região, segundo ele.

O plano de emergência está sendo discutindo dentro da ação de R$ 20 bilhões movida pelos governos federal, de Minas e Espírito Santo contra a Samarco e suas duas acionistas, a Vale e a BHP Billiton. O advogado-geral de Minas Gerais, Onofre Alves Batista Júnior, disse que nenhum acerto feito anteriormente será prejudicado.

Cobranças

Durante a audiência com deputados estaduais e outras autoridades, o superintendente do Ibama em Minas Gerais, Marcelo Belisário, destacou que o vazamento de 1 milhão de metros cúbicos de rejeitos, nesta quarta-feira, mostra que o evento provocado pelo rompimento da barragem em novembro ainda não está estabilizado.

Para o procurador regional dos direitos do cidadão da Procuradoria da República em Minas Gerais, Edmundo Antônio Dias Netto Júnior, a Samarco não tem possibilidade de garantir a segurança das populações às margens do Rio Doce. “Todo plano emergencial da empresa precisa ser reavaliado diante do acidente ocorrido ontem, para garantir a segurança da população”, disse ele.

Um vídeo foi apresentado durante a audiência, mostrando o deslocamento do material no momento em que uma inspeção era feita em Fundão.


O plano atual foi enviado pela empresa à justiça de Minas Gerais nesta quinta-feira. O documento foi solicitado dentro de ação movida contra a Samarco pelo Ministério Público Estadual (MP-MG). O material deveria ter sido entregue há cerca de 15 dias. À época, no entanto, a empresa entregou plano considerado "insuficiente" pelos promotores. A multa por dia de atraso é de R$ 1 milhão. O material prevê basicamente os impactos que podem ocorrer no meio ambiente e em áreas urbanas que possam ser atingidas em caso de novos rompimentos de estruturas.

Representantes da Samarco também estavam presentes no encontro e procuraram minimizar o mais recente evento na barragem. O responsável pela área de licenciamento da Samarco, Márcio Perdigão, disse que as chuvas dos últimos dias tiveram influência na movimentação dos rejeitos, sem causar danos às estruturas de Germano e Santarém, também de responsabilidade da mineradora.

Perdigão preferiu ressaltar que “o sistema de emergência funcionou”, em referencia à retirada de 450 funcionários da empresa. O coordenador de engenharia da Samarco, José Bernardo Vasconcelos complementou a fala do colega, afirmando que as obras em Santarém estão 85% concluídas e que o material que se movimentou já estaria amortecido e depositado.

Um grupo parlamentar faz nesta sexta-feira (29) uma nova visita à região das barragens da Samarco. Segundo o promotor de Meio Ambiente do MP-MG, Daniel Ornelas, que também participou da reunião da Comissão de Barragens, o encerramento das investigações sobre o rompimento da barragem da Samarco deve acontecer até o final de fevereiro. O promotor afirmou que ainda não teve contato com o novo plano de emergência, conhecido como "dam break".

Ibama

O Ibama rejeitou nesta quinta-feira o plano de ações emergenciais apresentado pela mineradora Samarco no dia 18 por considerá-lo "genérico" e por "minimizar todos os impactos ambientais da ruptura da barragem" de Fundão, que voltou a ter vazamento de rejeitos na quarta-feira. A empresa deverá entregar uma nova versão do documento até o dia 17 de fevereiro.

Na semana passada, a presidente do Ibama, Marilene Ramos, já havia criticado o documento, afirmando que era "pouco propositivo" e que estava "aquém" do ideal. De acordo com a nota técnica do Ibama, as ações têm pouco embasamento metodológico e científico. Além disso, a empresa não estimou prazos para cumpri-las, o que impossibilitaria o acompanhamento das metas.

O órgão critica, por exemplo, o fato de a Samarco não citar quais espécies de fauna e flora foram afetadas, quais estão em risco de extinção e quantas têm distribuição restrita nos locais atingidos. "Em relação aos impactos sobre os organismos aquáticos, verifica-se a tendência a subestimar o problema, inclusive se omitindo completamente em relação ao volume e a diversidade de peixes encontrados mortos ao longo da bacia do Rio Doce", declarou.

A Samarco afirmou que os pontos de aprimoramento sugeridos vão ser incorporados ao documento.

(Com Estadão Conteúdo e ALMG)
Fonte: Brasil Post
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