sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aluna desabafa sobre preconceito racial na aula e vídeo viraliza na web

 
Colegas da faculdade ridicularizaram a jovem, falando do cabelo afro.
Durante apresentação, ela recitou um poema e disse que não se calará.

“Meu cabelo não é ruim e não posso ficar calada, falar isso não é normal, vou resistir lutando, sempre”. Uma estudante de jornalismo de Divinópolis utilizou as redes sociais para divulgar um vídeo que fez enquanto recitava um poema dentro da sala de aula. A obra “Meu cabelo não é ruim”, de Thiago Yuri, foi expressada para chamar atenção sobre bullying e preconceito racial que ela disse ter sofrido de quatro colegas da faculdade.
Brunielly Keith, de 20 anos, pediu atenção dos colegas de sala alguns minutos antes do intervalo para desabafar sobre o ocorrido na última quinta-feira (18). Segundo ela, quando soube do que falaram sobre o cabelo, resolveu expor o que pensa.

O fato aconteceu durante o intervalo na faculdade. A estudante havia faltado de aula, porém uma das amigas estava na sala e escutou quatro colegas falarem do cabelo da jovem. Eles afirmavam que a amiga deveria avisar a Brunielly, que o cabelo dela não estava legal, através de frases do tipo: ‘Ela deveria passar um creme’, ‘o cabelo dela tá muito alto’, ‘ela deveria cortar ou passar chapinha’ e ‘ela tá levando essa história de ser natural a sério demais, não tá legal’.

“Quando minha amiga me contou meu sangue ferveu e por coincidência eu havia lido um poema sobre esse tipo de preconceito, foi aí que pensei: Qual o conceito de que o cabelo é bom? Por isso que eu não me calei e pensei: Meu Deus tenho que responder de alguma forma, porque gente, eu venho de uma sala de Comunicação, o mínimo que deveriam saber é sobre respeitar os outros, que jornalistas são esses que estão formando?”, questionou.

O vídeo já tem cerca de 150 compartilhamentos, quase sete mil visualizações e centenas de comentários de incentivo. Além disso, Brunielly disse que recebeu muitas mensagens de apoio nas redes sociais e pessoalmente.


Brunielly Keith postou desabafo em página de rede social (Foto: Facebook/Reprodução)

“O meu intuito era responder as ofensas, eu não poderia deixar passar em branco, não só por causa de mim, mas por causa de tantas outras mulheres que estão em processo de transição para o cabelo natural, que sofrem preconceito e que não se acham bonitas. Estou muito feliz e um pouco assustada com a repercussão, hoje quando eu acordei vi compartilhamentos de vários lugares do país, quero que esse vídeo chegue a essas pessoas que tentam nos ridicularizar”, finalizou.

Como o fato foi registrado dentro da universidade, o G1 tentou posicionamento da diretoria, assim como da coordenação do curso, mas as ligações não foram atendidas.

Consequências judiciais
A universitária ainda não decidiu se vai processar os colegas judicialmente, mas de acordo com o advogado Eduardo Augusto, neste caso os agressores podem sim responder por crime de racismo ou injúria, ou ainda pagar indenização por danos morais. “O crime de racismo enquadra na Lei nº7716 de 1989 e tem pena de três anos de reclusão, ou poderão responder por injuria, através do Artigo 140 do código penal, com pena de reclusão de um a três anos e multa, além disso, os infratores poderão responder também, por ação civil e ser condenados a pagar por indenização por danos morais”, informou.

Cacheada
“Eu não estava feliz e não me conhecia, por isso resolvi voltar a ser quem eu era, hoje estou realizada”, disse. Brunielly fazia uso de produtos de alisamento para cabelo desde os nove anos de idade, mas no último dia de 2013, ela resolveu iniciar a transição para deixar o cabelo natural. Desde então, nunca fez uso dos produtos e disse estar feliz. Porém, ela afirmou sofrer preconceitos sempre, muitos de forma velada, sem que ela possa defender. Apesar disso, Brunielly afirmou que continuará lutando e não ficará calada.

“Uma vez fiquei muito incomodada, eu estava entrando no ônibus e uma senhora começou a me olhar, muito! Ela começou a me elogiar dizendo que eu era linda e tinha traços lindos, olhos, nariz, boca, mas disse: pena que você tem esse cabelo! Eu fiquei horrorizada com aquela afirmação e simplesmente falei: Com licença senhora, mas não me assento ao lado de preconceituosos. É ridículo e um absurdo viver em um dos países mais misturados do mundo, onde todos têm sangue crioulo e sofrer com preconceito. O que eu quero dizer é que não podemos aceitar isso, e nem nos calar, devemos resistir, gritando e lutando por isso”, informou.

A universitária afirmou que ofensas dessa forma já se tornaram rotineiras, mas ela faz a parte dela e expõe a opinião sempre na internet. Brunielly também tem um canal no Youtube com dicas de cuidados com o cabelo e de apoio as mulheres que sofrem de preconceitos raciais e que assumiram o cabelo natural.

Clique aqui e assista ao vídeo.

 
Por Laiana Modesto, do G1
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