segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

4 Estereótipos Racistas que Hollywood Precisa Parar de Usar


Notícias chocantes: Hollywood continua racista. Ok, vai, se você é uma pessoa um tantinho antenada, então essa notícia não é tão chocante assim. Se você prestou atenção, por exemplo, agora em 2015 absolutamente nenhum ator/atriz negro foi indicado ao Oscar de 2015. De fato, em toda a história da premiação, apenas 31 negros ganharam a estatueta, contra 2947 vencedores brancos. Em se tratando de atrizes negras, então, nem se fale. A única a conseguir a façanha de ganhar a estatueta dourada para Melhor Atriz foi Halle Berry – e isso já faz mais de dez anos. Como Melhor Atriz Coadjuvante, apenas seis atrizes negras já ganharam. Seguindo a mesma tendência, nenhum diretor negro jamais ganhou um Oscar. A ojeriza da Academia em premiar um diretor negro aparentemente é tanta, que a diretora de Selma, Ava DuVernay, não chegou sequer a concorrer por Melhor Diretor esse ano – mesmo o filme tendo sido indicado para a categoria de Melhor Filme (e se você não acha isso estranho, deixa eu te contar que, pelo histórico da premiação, as duas categorias são praticamente a mesma coisa: de 86 filmes que ganharam Melhor Filme, 62 ganharam também Melhor Direção).

Inevitavelmente, essa disparidade se reflete também nos próprios filmes, com poucos negros integrando vastos elencos de atores brancos. E como se não bastasse a pouca representação negra no grosso dos filmes hollywoodianos, quando eles aparecem, na maioria das vezes é para reproduzir estereótipos racistas cretinos. E eu não estou falando só dos clássicos estereótipos racistas do Negro Bandido/Malandro/Preguiçoso/Serviçal. Embora muitos filmes ainda reproduzam esse tipo de estereótipo e ele ainda ser predominante nas novelas brasileiras, Hollywood, em geral, sacou que estava fazendo merda e fez um esforço consciente de mudar isso. Nessa tentativa mal-ajambrada de compensar seus erros passados, no entanto, acabou criando uma nova leva de estereótipos racistas para racista nenhum botar defeito. Estereótipos como…
O Negro Mágico

Exemplos: À Espera de um Milagre, Lendas da Vida, Um Maluco no Golfe, Endiabrado, Todo Poderoso e sequências. Basicamente, se o Morgan Freeman estiver no filme, são grandes as chances de você estar assistindo a um Negro Mágico.

Cunhado por Spike Lee em uma discussão sobre o filme À Espera de um Milagre, o termo Negro Mágico é usado para denominar aquele personagem sábio e místico que sempre aparece para salvar o dia do protagonista branco. Cheio de sabedoria e espiritualidade – e poderes sobrenaturais, em alguns casos – ele costuma ser de origem muito humilde (um zelador, um prisioneiro, um mendigo), mas pouco se preocupa com a própria condição. Não, o único objetivo de vida desse personagem é resolver os problemas do protagonista branco. Variações do Negro Mágico incluem a Empregada Benevolente (babá, cozinheira, faxineira) e o Melhor Amigo Conselheiro. Nenhum deles têm história própria – ou, pelo menos, nenhum deles tem história própria que tenha valor suficiente para aparecer no filme.


Apesar de a intenção por trás do personagem do Negro Mágico ser essencialmente boa e definitivamente uma melhora se comparado aos clássicos estereótipos racistas do Negro Bandido/Preguiçoso/Malandro, ainda assim ele é um problema. Em primeiro lugar, ele é um acessório fácil para roteiristas preguiçosos, que se aproveitam dos estereótipos racistas populares de que negros são seres exóticos da mística e misteriosa África para criar soluções fáceis para os seus enredos. Além disso, o Negro Mágico não salva o dia com a sua competência ou pelo seu próprio esforço, mas com a sua humilde sabedoria mística, que ele adquiriu…sei lá, pelo simples fato de ser negro. E por último, mas não menos importante, o Negro Mágico reforça a ideia de que pessoas negras são uma classe diferente de seres humanos – uma classe que não só é completamente indiferente e receptiva em relação à toda a bosta que a vida joga na cara dela (e quando eu digo a vida, eu quero dizer as pessoas brancas), como é uma classe que existe unicamente em função dos seres humanos que realmente têm valor: os brancos (afinal, são eles os heróis protagonistas, com problemas, ambições, angústias e desejos próprios). Então, sabe, por mais que Hollywood tente compensar por todos os Negros Bandidos/Preguiçosos/Malandros, ela ainda acaba caindo nos estereótipos racistas do negro-serviçal-’sua-história-não-é-tão-importante-quanto-a-do-herói-branco’ ao usar o Negro Mágico.

Curiosamente, o oposto do Negro Mágico também é um estereótipo muito usado, o que nos leva ao próximo item da lista…
O Negro que Precisa de um Branco que o Salve

Exemplos: Mentes Perigosas, Histórias Cruzadas, Um Sonho Possível, Hardball – O Jogo da Vida, Um Diretor Contra Todos, Música do Coração, Escritores da Liberdade

O Negro que Precisa de um Branco que o Salve (NPBS, para ficar mais fácil) é, na verdade, quase o oposto do Negro Mágico: ele não tem poderes, ele não tem sabedoria, ele não salva o dia, mas em praticamente todos os casos, ele é pobre e/ou fodido. Despojado da indiferença que o Negro Mágico possui pela sua própria condição desesperadora, o NPBS está sempre prestes a seguir pelo mal caminho quando um branco salvador da pátria aparece para mostrar que ele pode, sim, ser mais do que um traficante/membro de gangue/viciado, droga!


Os filmes que trabalham com estereótipos racistas do do Negro que Precisa de um Branco que o Salve são alguns dos mais cretinos, na minha opinião, porque eles passam a falsa impressão de que a história é sobre os personagens negros, quando na verdade eles só estão ali para mostrar como aquele único protagonista branco é incrível. E o que é pior: o NPBS é quase que uma inversão completa do Negro Mágico – com o branco salvando o dia ao invés do negro místico -, mas enquanto o Negro Mágico é um personagem secundário, no NPBS o branco é O PROTAGONISTA. E ele faz tudo sem mágica, com muito esforço e perseverança – mostrando, assim, como ele é incrivelmente bonzinho e incrível com a pobre minoria marginalizada.

É possível que as intenções por trás do NPBS, assim como as do Negro Mágico, sejam boas (muito provavelmente elas se originam de uma culpa que os brancos sentem por serem privilegiados). Mas mesmo assim, Hollywood, você está fazendo isso errado.
O Negro que Não Merece uma Mulher Branca

Exemplos: Hitch – Conselheiro Amoroso, Homens de Preto II, Scrubs, Por um Triz.

O estereótipo do Negro que Não Merece uma Mulher Branca ocorre basicamente toda vez que um personagem negro tem uma namorada, esposa ou interesse amoroso e essa mulher não é branca (podendo ela ser negra ou latina).


A não ser em filmes com temáticas que tratam especificamente de questões raciais e em algumas raras exceções, é praticamente impossível ver um personagem masculino negro ficar com uma mulher branca. Já o contrário – isto é, uma personagem feminina negra com um homem branco – é até que frequente. O motivo para isso mistura doses cavalares tanto de racismo quanto de machismo: basicamente, o público norte-americano não gosta de ver “homens negros pegando nossas mulheres brancas”. No caso de Hitch – Conselheiro Amoroso, por exemplo, a atriz que inicialmente havia sido cogitada para fazer o par romântico de Will Smith foi a Cameron Diaz, maso próprio ator comentou em entrevistas que isso não deu certo porque os produtores ficaram preocupados com a reação do público ao ver um homem negro com uma mulher branca. Com isso, a atriz latina Eva Mendes foi escalada para o papel, iniciando-se aí a sua saga de eterno par romântico de protagonistas negros – papel que ela repete em Dia de Treinamento, Por um Triz eAmigos por Acaso.

E se você ainda não está convencido, escuta essa. Um dos poucos filmes que mostra um casal composto por um homem negro com uma mulher branca é de 1967 e estrelou Sidney Poitier. O nome do filme era Adivinhe Quem Vem Para Jantar e a história era sobre as tensões que se seguem quando a personagem branca leva o namorado negro para jantar em casa. Trinta e oito anos depois, a refilmagem – rebatizada de A Família da Noiva – é feita, mas com uma pequena alteração: dessa vez, a noiva é uma garota negra que leva o namorado branco (Ashton Kutcher) para jantar em casa.


* Vale lembrar que esse é um estereótipo hollywoodiano que prevalece pelo histórico racial único norte-americano, que reforçou um sistema binário de raças em que uniões inter-raciais foram proibidas durante séculos. No Brasil, onde prevaleceu a chamada “democracia racial”, com uma forte política de mestiçagem que fortaleceu ainda mais o racismo, acontece o contrário. Homens brancos escolhem mulheres brancas e homens negros…também. Entre as mulheres negras brasileiras, pegas em uma cruza cruel de racismo, machismo e opressão e classe, existe inclusive um nome para homens negros que “preferem” mulheres brancas em detrimento das negras: palmiteiro. Stephanie Ribeiro fala sobre isso muito bem no esclarecedor texto Tu Palmitas, Nós Preteridas, e Joice Berth também fala sobre o que realmente está por trás da solidão afetiva de mulheres negras brasileiras.
A Negra Arretada

Exemplos: A Casa Caiu, Hairspray – Em Busca da Fama, Vovó…Zona, Dreamgirls, e praticamente todos os filmes com a Queen Latifah.

A negra arretada é aquela personagem expansiva, cheia de atitude, que não tem medo de puxar a orelha de quem quer que seja e é mestre em fazer movimentos circulares com a cabeça sem dar mal jeito no pescoço.


Curiosamente, os estereótipos racistas relacionados à negra arretada surgiu como resultado do Movimento pelos Direitos Civis e do Movimento Feminista como uma forma de trazer mais visibilidade para mulheres negras no Cinema. Antes disso, elas eram relegadas à subserviência e/ou ao silêncio, por isso a mudança foi considerada bem-vinda inicialmente e foi muito utilizada por autores e roteiristas que queriam mostrar que não eram racistas escrevendo empregadas negras que eram a alegria da casa e não hesitavam em repreender o patrão quando preciso (porque, obviamente, se a empregada negra é como se fosse da família, então não tem como essa família ser racista, néam! #sqn).

O problema é que tem dois caminhos que esse estereótipo pode tomar: o caminho razoavelmente inofensivo, que geralmente faz com que a negra arretada seja barulhenta, sim, mas também sensata, confiável e uma boa líder; e o caminho negativo, que envereda ladeira abaixo nos estereótipos da Negra Promíscua, da Negra Barraqueira e da Negra Perua. O problema também está na frequência com que esse estereótipo é usado, que é grande. Sim, Hollywood, pode parecer chocante para você, mas mulheres negras também podem ser introspectivas, tímidas, observadoras, reservadas, etc, etc, etc. Em suma, todo o espectro de personalidades que uma pessoa branca pode ter é o mesmo para uma pessoa negra.

Então, Hollywood, faz favor: tira a cabeça de dentro do fiofó e larga mão de reproduzir racismo. Todos agradecem.


Por Lara Vascouto Do No de Oito
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