sábado, 29 de março de 2014

LAMENTO, CLÁUDIA FERREIRA - Zulu Araujo

 

Lamento Cláudia, por não termos conseguido evitar sua morte de maneira tão estúpida e violenta. Apesar das inúmeras denúncias, apelos, mobilizações e campanhas, realizadas pelo movimento negro brasileiro e aliados, as polícias militares do nosso país, em particular a do Rio de Janeiro, continuam raciocinando e agindo de acordo com o velho ditado: "branco correndo é atleta e preto correndo é ladrão". Por isto, não adiantou nada você gritar para seus algozes que não era traficante, que era trabalhadora e que estava apenas indo comprar um café e pão para seus filhos. Também nada adiantou seus amigos e vizinhos gritarem a plenos pulmões de que você era uma mulher guerreira e batalhadora, seus algozes estavam surdos, mudos e cegos pela violência cotidiana que estão acostumados a exercer, com o beneplácito, quando não o apoio efusivo dos seus superiores.

Lamento Cláudia, por não termos, até o presente momento, conseguido sensibilizar a justiça brasileira, para que ela cumpra com o seu dever e faça valer o que está inscrito de forma cristalina na Constituição brasileira, de que o racismo é crime imprescritível e inafiançável e que os que o cometem devem ser exemplarmente punidos, até porque a legislação internacional, do qual o Brasil é signatário, o inscreve como "crime de lesa humanidade". Prova maior disto Cláudia, é que seus algozes foram soltos dias depois, após sentença de uma juíza, mulher como você, porém branca e oriunda da elite brasileira, que não conseguiu identificar nenhuma prova contra os policiais, apesar do vídeo exaustivamente veiculado nas redes sociais e meios de comunicação, mostrarem você sendo jogada como um saco de lixo na mala de uma viatura e segundo seus vizinhos sendo arrastada por mais de uma vez pelas ruas da cidade. O que temos visto Cláudia, é que a impunidade continua sendo exercida na plenitude nestes casos, e quando alguns poucos são levados aos tribunais, são mitigados ou desqualificados para injúria racial, crime considerado de menor potencial ofensivo e consequentemente arquivados, mesmo quando ceifam vidas como a sua, uma pessoa honrada e trabalhadora.

Lamento Cláudia, que apesar dos nossos avanços e conquistas realizadas a duras penas nos últimos anos, por conta da mobilização e apoio de setores significativos da nossa sociedade, não tenhamos conseguido fazer com que as autoridades brasileiras, notadamente das áreas da segurança pública, compreendam que a pena de morte não existe no país e de que morar num bairro pobre e de periferia não significa que sejamos todos marginais e mesmo aqueles que o são devem ser presos, julgados e condenados na forma da lei e não serem executados por grupos de extermínios fardados ou não, em plena luz do dia, como ocorreu com você.

Lamento Cláudia, que não tenhamos conseguido honrar aquilo que muitos líderes do movimento negro, pregam nos seus discursos e que você exercia na plenitude. Você era negra, pobre, trabalhadora e da periferia. Mas, ainda assim não conseguiu sensibilizar o nosso movimento, em particular o do Rio de Janeiro, para exigir das autoridades cariocas, em particular do seu governador, que pare de uma vez por todas com sua retórica demagógica e cumpra com o seu dever cívico, já que foi eleito para tanto, de dar segurança a todos os seus cidadãos, independente da cor da pele, da sua condição social ou do seu credo religioso. Enquanto isso Cláudia, o movimento negro está praticamente imobilizado, disperso e fragilizado por questões menores e lutas intestinas que indicam a ausência de propostas e ações que nos levem a enfrentar os novos desafios, que a sociedade brasileira e em particular os racistas, estão nos impondo. .

Lamento Cláudia, que sua família, tenha sido desestruturada de forma tão violenta e que seus filhos naturais e adotivos venham a pagar por muitos e muitos anos, por mais este crime brutal e racial. Lamento mais ainda, em saber que não só você tem sido vítima destas crueldades. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Aplicada – IPEA, 79% dos policiais militares do Estado de São Paulo que participaram de ocorrências com morte são brancos, enquanto que 61% das vítimas são negras e possuem menos de 24 anos. A pesquisa identificou que há três vezes mais negros mortos para cada branco. E a Secretaria de Segurança sabe o que disse: "vamos avaliar os estudos para decidir se eles podem subsidiar aprimoramento das políticas públicas de segurança". É muito cinismo, não?

Enfim Cláudia, apesar de todos estes lamentos, uma coisa eu posso afirmar, apesar desta derrota, nós continuaremos nossa caminhada e não descansaremos enquanto a violência, a discriminação e o racismo não forem erradicados do nosso país. E para tanto, convocamos todos aqueles que acreditam na cidadania, nos direitos humanos e na igualdade como bens maiores da sociedade a cerrarem fileiras em sua homenagem, pois a luta continua !

Axé !

Toca a zabumba que a terra é nossa!
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